sábado, 24 de outubro de 2026

Os Donos do Poder

Título no Brasil: Os Donos do Poder
Título Original: Power
Ano de Lançamento: 1986
País: Estados Unidos
Estúdio: Lorimar Motion Pictures
Direção: Sidney Lumet
Roteiro: David Himmelstein
Elenco: Richard Gere, Julie Christie, Gene Hackman, Kate Capshaw, Denzel Washington e E. G. Marshall. 

Sinopse:
Pete St. John é um dos mais influentes consultores políticos dos Estados Unidos, um profissional especializado em construir a imagem pública de candidatos e ajudá-los a conquistar o apoio dos eleitores. Inteligente, ambicioso e extremamente habilidoso, Pete conhece os mecanismos da publicidade política e sabe como transformar as características de um candidato em instrumentos de persuasão. Sua profissão, entretanto, também o obriga a trabalhar com políticos cujos interesses nem sempre correspondem às suas convicções pessoais. Quando seu amigo, o senador Sam Hastings, decide abandonar a carreira política devido a problemas de saúde, Pete é contratado para ajudar Jerome Cade, um empresário que pretende ocupar a vaga no Senado. Inicialmente, o trabalho parece representar apenas mais uma oportunidade profissional, mas Pete começa a desconfiar das verdadeiras intenções de seu novo cliente. A situação se complica quando ele percebe que interesses empresariais e econômicos estão influenciando a campanha e que algumas decisões políticas podem favorecer poderosos grupos ligados ao petróleo. Ao mesmo tempo, Pete enfrenta a oposição de Wilfred Buckley, antigo amigo e rival profissional, além de manter uma relação complicada com Ellen Freeman, sua ex-esposa e jornalista política. À medida que investiga os bastidores da candidatura de Cade, Pete precisa decidir até que ponto está disposto a sacrificar seus princípios em troca de dinheiro, influência e sucesso. 

Comentários: 
Os Donos do Poder é um drama político dirigido por Sidney Lumet, cineasta conhecido por filmes que investigam as relações entre poder, corrupção e instituições americanas, como Serpico e Rede de Intrigas. Lançado em 1986, o longa apresenta Richard Gere no papel de Pete St. John, um consultor que trata as campanhas eleitorais como produtos comerciais, utilizando pesquisas, publicidade e estratégias de comunicação para influenciar a opinião pública. Gere interpreta o protagonista com elegância e segurança, transmitindo o comportamento de um profissional acostumado a controlar situações e a esconder suas próprias dúvidas. Gene Hackman interpreta Wilfred Buckley, seu antigo parceiro e rival, enquanto Julie Christie vive Ellen Freeman, a jornalista que conhece tanto suas qualidades quanto suas contradições. Denzel Washington aparece como Arnold Billings, um assessor político envolvido nos interesses que cercam a candidatura de Jerome Cade. Kate Capshaw e E. G. Marshall também desempenham papéis importantes na trama. O roteiro de David Himmelstein foi inspirado em sua experiência de pesquisa sobre campanhas eleitorais e consultores políticos, procurando mostrar como a imagem pública de um candidato pode ser cuidadosamente construída para conquistar votos. A direção de Lumet confere à narrativa um tom realista, com diálogos rápidos, disputas profissionais e acontecimentos que revelam as relações entre publicidade, dinheiro e influência política. 

A recepção crítica foi dividida. Roger Ebert, do Chicago Sun-Times, elogiou a autenticidade da representação dos consultores políticos, afirmando que o filme transmite a sensação de um assunto bem pesquisado, mas criticou a estrutura narrativa por considerar que faltava uma história central mais bem definida. Vincent Canby, do The New York Times, foi ainda mais severo, avaliando que a produção apresentava poucas ideias realmente desenvolvidas. A Variety também considerou que o filme não explorava plenamente as possibilidades de sua crítica à política e à publicidade. Comercialmente, o resultado ficou aquém das expectativas: o filme arrecadou aproximadamente US$ 3,8 milhões nos Estados Unidos e no Canadá, diante de um orçamento estimado entre US$ 14 milhões e US$ 16 milhões. 

Apesar disso, Os Donos do Poder permanece interessante para quem deseja compreender a evolução do marketing político e a crescente importância da construção da imagem dos candidatos nas campanhas eleitorais modernas. O filme também tem valor por reunir Richard Gere, Gene Hackman, Julie Christie e um jovem Denzel Washington em uma produção de um diretor experiente como Lumet. Sua crítica aos bastidores da política continua pertinente, especialmente ao mostrar como interesses econômicos, estratégias de comunicação e ambições pessoais podem influenciar decisões que afetam toda a sociedade. Hoje, a obra é lembrada como um retrato imperfeito, mas relevante, dos mecanismos de poder na política americana dos anos 1980.

Erick Steve. 

Rei Davi

Título no Brasil: Rei Davi
Título Original: King David
Ano de Produção: 1985
País: Estados Unidos, Inglaterra
Estúdio: Paramount Pictures
Direção: Bruce Beresford
Roteiro: Andrew Birkin, James Costigan
Elenco: Richard Gere, Edward Woodward, Alice Krige

Sinopse:
Após vencer o terrível Golias, o jovem Davi (Richard Gere) se torna o novo Rei dos judeus. Durante sua vida (estima-se que tenha vivido entre 1040 a.C até 970 a.C) o monarca da antiguidade se torna um exemplo de rei forte mas piedoso e temeroso perante seu Deus. Baseado nos fatos narrados no Velho Testamento da Bíblia.

Comentários:
Imaginem o galã Richard Gere dando vida no cinema ao lendário Rei Davi de Israel. Pois é, foi justamente isso que a Paramount Pictures tentou transformar em sucesso em meados da década de 80. Nem precisa dizer que não deu muito certo. O roteiro escrito não agradou, nem aos judeus e nem aos cristãos. Houve várias críticas às licenças poéticas mostradas no enredo. Realizar filmes com personagens bíblicos sempre trazem problemas pois certamente algum líder de algum segmento religioso não gostará do resultado final. Em minha forma de ver o filme não é tão ruim como dizem. Certamente o texto não é tão religioso como alguns grupos queriam, priorizando mais o lado mais guerreiro e romântico do famoso monarca. Acredito que muitos religiosos criam sua própria visão do que seria Davi no velho testamento mas na realidade, olhando sob um ponto de vista puramente histórico, ele estaria mais próximo do que efetivamente aconteceu. Não é um grande épico e nem tem produção muito luxuosa mas não me desagradou. Penso que é um filme bem interessante no final das contas.

Pablo Aluísio.

sábado, 17 de outubro de 2026

Cotton Club

Título no Brasil: Cotton Club
Título Original: The Cotton Club
Ano de Produção: 1984
País: Estados Unidos
Estúdio: Zoetrope Studios
Direção: Francis Ford Coppola
Roteiro: William Kennedy, Francis Ford Coppola
Elenco: Richard Gere, Gregory Hines, Diane Lane

Sinopse:
As estórias, dramas, romances e decepções daqueles que fizeram a fama do Cotton Club, uma popular casa noturna de jazz localizada no bairro do Harlem em Nova Iorque. Filme indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Direção de Arte e Melhor Edição (Barry Malkin e Robert Q. Lovett). Também indicado ao Globo de Ouro nas categorias de Melhor Filme - Drama e Melhor Direção (Francis Ford Coppola).

Comentários:
Verdade seja dita: poucos diretores amaram mais a sétima arte do que Francis Ford Coppola. E essa não é uma frase vazia. O cineasta apostou alto em seu amor pelo cinema. Não mediu esforços e colocou toda a sua fortuna em prol da realização de filmes que sonhava realizar. Muitos deles foram fracassos comerciais monumentais que destruíram sua estabilidade financeira. Mas Coppola, tão idealista e apaixonado, não se importava em pagar esse alto preço. "The Cotton Club" faz parte da série de filmes que arruinaram o diretor do ponto de vista comercial. Ele porém amou a oportunidade de realizar esse velho sonho, quase uma homenagem ao mundo da música, tudo rodado em um universo meio mágico, quase uma fábula. Pode ter sido um fracasso comercial, mas do ponto de vista puramente artístico é uma grande obra cinematográfica. O diretor estava tão inspirado que conseguiu até mesmo arrancar uma grande interpretação do ator Richard Gere, considerado até então um canastrão inveterado. E o que dizer de Gregory Hines? Ele literalmente rouba as cenas em que aparece. Assim o que temos aqui é uma declaração de amor ao cinema e à música, pelas mãos do genial Francis Ford Coppola! Se as pessoas na época de lançamento não entenderam isso, certamente não é culpa do diretor, que sempre esteve tão a frente de seu tempo. Excelente musical.

Pablo Aluísio.

A Força do Amor

Título no Brasil: A Força do Amor
Título Original: Breathless
Ano de Produção: 1983
País: Estados Unidos
Estúdio: Orion Pictures, Columbia Pictures
Direção: Jim McBride
Roteiro: François Truffaut, Jean-Luc Godard
Elenco: Richard Gere, Valérie Kaprisky, Art Metrano

Sinopse:
Jesse Lujack (Richard Gere) não cabe em si mesmo de tanta vontade de viver intensamente cada minuto de sua vida. Para isso ele toma atitudes fora do comum, causando perplexidade em todos ao seu redor. Ao lado de Monica Poiccard (Valérie Kaprisky) ele quer viajar e ganhar o mundo, sempre com o rádio de seu carro sintonizado no último volume em seu grande ídolo, o roqueiro dos anos 50 Jerry Lee Lewis.

Comentários:
Esse filme foi um tremendo fracasso de público e crítica em seu lançamento. Na época em que foi lançado a película recebeu adjetivos do tipo "imbecil", "estúpido" e outros "elogios". Sempre achei muito exageradas as reações, inclusive me surpreendi bastante com isso já que o roteiro foi escrito e criado pelo prestigiado François Truffaut. Mudou sua capacidade de escrever bons textos ou mudaram as boas intenções de quem sempre o elogiou no passado? Enfim, são mistérios da crítica mundial. De uma forma ou outra quero chamar a atenção para a vivacidade da interpretação de Richard Gere. Esse é um personagem bem diferenciado de sua carreira, um sujeito que parece viver a mil, beirando inclusive a doença mental (não entregarei as surpresas do roteiro, mas saibam que dei uma dica importante por aqui). Curiosamente seu personagem também tem uma obsessão louca pelo roqueiro pioneiro Jerry Lee Lewis, procurando imitar sua personalidade radiante e fora dos padrões. O próprio título original "Breathless" é o nome de um famoso sucesso do assim conhecido "The Killer". No geral o que sobra de toda essa salada com coca-cola é um filme que sempre considerei muito divertido, com altos e baixos sim, mas longe do rótulo de "porcaria" que lhe foi imposto injustamente na época em que chegou aos cinemas pela primeira vez.

Pablo Aluísio.

Richard Gere - Filmografia Selecionada

Richard Gere - Filmografia Selecionada

Década de 1980:
Gigolô Americano
A Força do Destino
A Força de um Amor
Cotton Club
Rei David
Os Donos do Poder
Sem Perdão
Gritos de Revolta

Pesquisa: Pablo Aluísio. 

sábado, 10 de outubro de 2026

Nove Semanas e Meia de Amor

Nove Semanas e Meia de Amor
Nove Semanas e Meia de Amor (Nine 1/2 Weeks), lançado em 1986, é um drama romântico erótico dirigido por Adrian Lyne, cineasta britânico que já havia alcançado grande sucesso com Flashdance (1983) e que posteriormente se tornaria conhecido por filmes como Atração Fatal (1987) e Proposta Indecente (1993). Estrelado por Mickey Rourke e Kim Basinger, o longa tornou-se uma das produções mais comentadas de sua época por apresentar uma relação amorosa marcada por sensualidade, jogos psicológicos e disputas de poder. O roteiro foi escrito por Patricia Knop, Zalman King e Sarah Kernochan, inspirado no livro autobiográfico publicado sob o pseudônimo Elizabeth McNeill, baseado na experiência de Ingeborg Day. Kim Basinger interpreta Elizabeth McGraw, uma assistente de galeria de arte em Nova York que, depois de um divórcio, procura reorganizar sua vida emocional. Mickey Rourke vive John Gray, um misterioso e bem-sucedido profissional do mercado financeiro que conhece Elizabeth por acaso e passa a seduzi-la. O elenco também conta com Margaret Whitton, David Margulies, Christine Baranski e Karen Young. O relacionamento começa como uma aventura excitante, mas gradualmente se transforma em uma experiência psicológica intensa, na qual John propõe situações cada vez mais ousadas e procura controlar diferentes aspectos da vida de Elizabeth. A protagonista, inicialmente atraída pela novidade e pela segurança aparente do companheiro, começa a perceber que a intimidade entre os dois está sendo construída em condições que nem sempre consegue compreender ou controlar. A direção de Lyne aposta em iluminação cuidadosamente trabalhada, ambientes elegantes, música pop e sequências sensuais que privilegiam imagens, gestos e silêncios. As filmagens ocorreram principalmente em Nova York, e a produção enfrentou dificuldades antes de chegar às telas, passando por mudanças de estúdio, sucessivas versões do roteiro e cortes consideráveis. Embora tenha sido concluído antes de sua estreia, o filme só chegou aos cinemas americanos em 21 de fevereiro de 1986, depois de um processo de edição que alterou significativamente a intensidade de algumas passagens.

A recepção crítica nos Estados Unidos foi predominantemente negativa ou dividida, especialmente porque muitos críticos consideraram que o filme prometia explorar uma relação psicológica complexa, mas não desenvolvia suficientemente os personagens. Vincent Canby, do The New York Times, observou que os protagonistas pareciam integrar-se à decoração com tamanha intensidade que acabavam adquirindo a aparência de produtos cuidadosamente fotografados, uma crítica à estética sofisticada e ao tratamento superficial dos sentimentos. A revista Variety foi ainda mais severa, argumentando que faltava algo verdadeiramente interessante entre os protagonistas, como diálogos convincentes ou uma evolução dramática capaz de sustentar a duração do filme. O Los Angeles Times, em crítica assinada por Sheila Benson, reconheceu que a história poderia ter produzido um retrato perturbador da perda da identidade dentro de uma paixão absorvente, mas considerou que a versão cinematográfica não desenvolvia suficientemente as fragilidades emocionais da personagem de Basinger. A crítica observou que, sem uma compreensão mais profunda das necessidades e vulnerabilidades de Elizabeth, a relação corria o risco de parecer apenas uma sucessão estilizada de experiências sexuais e humilhações. Roger Ebert, do Chicago Sun-Times, foi uma das vozes mais favoráveis: concedeu três estrelas e meia de quatro e elogiou a química entre Rourke e Basinger, considerando convincente, complexa e sensual a tensão entre os dois. Para Ebert, o filme era mais reflexivo do que sua reputação provocadora poderia sugerir, pois mostrava como a atração física podia se misturar a sentimentos contraditórios e a uma relação de poder. Essa diferença de interpretação explica por que a obra recebeu avaliações tão distintas. Enquanto alguns críticos enxergaram uma experiência visualmente atraente, mas dramaticamente vazia, outros perceberam um estudo desconfortável sobre sedução, dependência emocional e perda gradual da autonomia. A atuação de Rourke foi frequentemente elogiada por seu magnetismo e sua presença enigmática, enquanto Basinger recebeu avaliações mais variadas, em parte porque o roteiro lhe oferecia poucas oportunidades para expressar diretamente os conflitos internos da personagem. O debate crítico acabou se concentrando na distância entre a ousadia anunciada pela publicidade e a profundidade psicológica efetivamente alcançada pelo filme.

Na Europa, o longa despertou curiosidade pela combinação de erotismo, fotografia sofisticada e uma abordagem relativamente incomum das relações íntimas no cinema comercial americano. Entretanto, a recepção britânica e europeia também foi marcada por reservas quanto ao desenvolvimento dramático e à maneira como o filme representava a submissão e o controle dentro de um relacionamento. A classificação britânica registra conteúdo sexual forte, e o lançamento europeu tornou-se parte da discussão sobre os limites da representação erótica no cinema comercial da década de 1980. Um dos aspectos mais comentados foi a diferença entre a versão exibida nos Estados Unidos e as versões internacionais, pois o distribuidor americano considerou o material excessivamente explícito e promoveu cortes. Essa decisão contribuiu para a percepção de que a produção havia sido suavizada, enfraquecendo algumas das implicações psicológicas presentes na história original. O The Globe and Mail, do Canadá, observou que havia algo contraditório na tentativa de provocar o espectador com situações sexuais e, ao mesmo tempo, tranquilizar o público mais conservador, concluindo que o resultado parecia menos ousado do que sua reputação sugeria. 

A crítica britânica e outras avaliações internacionais também deram atenção à direção de Adrian Lyne, cuja preferência por imagens elegantes, movimentos lentos de câmera e composições cuidadosamente planejadas acabaria influenciando muitos dramas eróticos posteriores. A produção não conquistou grandes prêmios cinematográficos em seu lançamento, e sua importância inicial esteve mais associada à polêmica e à repercussão cultural do que ao reconhecimento por academias ou festivais. Ainda assim, a controvérsia ajudou a consolidar a imagem de Lyne como um realizador interessado em personagens que atravessam fronteiras morais e emocionais dentro de ambientes contemporâneos luxuosos. A obra também se tornou uma referência recorrente em discussões sobre a representação da sexualidade no cinema dos anos 1980, especialmente quando comparada a produções mais explícitas ou psicologicamente intensas. A diferença entre o livro e o filme continuou sendo apontada por críticos que consideravam a narrativa cinematográfica menos íntima e menos reveladora do que o relato que a inspirou. Desse modo, a recepção europeia não transformou imediatamente Nove Semanas e Meia de Amor em um clássico crítico, mas contribuiu para a permanência de sua reputação como uma obra controversa, visualmente marcante e representativa de uma fase específica do cinema erótico comercial.

Do ponto de vista comercial, a trajetória do filme foi bastante diferente dependendo do mercado considerado. O orçamento de produção é estimado entre US$ 17 milhões e US$ 18 milhões, uma quantia expressiva para um drama romântico erótico sem grandes sequências de ação ou efeitos especiais. Nos Estados Unidos e no Canadá, a arrecadação ficou em aproximadamente US$ 6,7 milhões, um resultado decepcionante diante do investimento realizado. O lançamento americano começou em um número relativamente limitado de salas, e a recepção crítica desfavorável não ajudou a transformar a curiosidade inicial em um grande sucesso doméstico. A história internacional, porém, foi mais favorável. O filme encontrou um público significativo em vários mercados estrangeiros, sobretudo na Europa, e algumas fontes históricas de referência registram uma arrecadação mundial estimada próxima de US$ 100 milhões, embora esse número seja difícil de reconciliar com os registros mais conservadores disponíveis para a bilheteria americana e com a ausência de uma prestação de contas internacional uniforme. O contraste entre o desempenho doméstico e a popularidade internacional tornou-se uma das características mais curiosas da trajetória da produção. A trilha sonora também contribuiu para a circulação cultural do filme, reunindo músicas associadas à atmosfera sensual e melancólica da narrativa. A sequência em que Elizabeth dança ao som de “You Can Leave Your Hat On”, na interpretação de Joe Cocker, tornou-se uma das imagens mais lembradas da obra e ajudou a fixar sua identidade na memória popular. O filme também encontrou uma segunda vida no mercado de vídeo doméstico, onde espectadores podiam assistir às versões disponíveis fora das restrições das salas de cinema americanas. Esse percurso contribuiu para ampliar a audiência muito além daquela registrada no lançamento original. A combinação entre a curiosidade provocada pela temática, o apelo das estrelas e a divulgação centrada nas cenas sensuais fez com que o título continuasse circulando por décadas. Embora os números financeiros exatos devam ser interpretados com cautela, é evidente que a repercussão internacional e o mercado doméstico de vídeo foram fundamentais para transformar uma estreia americana comercialmente decepcionante em uma produção de considerável longevidade cultural.

Com o passar do tempo, Nove Semanas e Meia de Amor adquiriu o status de filme cult, principalmente por sua estética, pela trilha sonora e pela química entre os protagonistas. A obra passou a ser lembrada como um dos dramas eróticos mais emblemáticos dos anos 1980, período em que o cinema comercial explorava com crescente frequência temas como desejo, infidelidade, obsessão e relações afetivas desequilibradas. Sua influência pode ser percebida na maneira como produções posteriores combinaram erotismo, suspense psicológico e ambientes visualmente sofisticados. Adrian Lyne desenvolveria essa abordagem de maneira ainda mais popular em Atração Fatal, lançado no ano seguinte, que transformou uma relação extraconjugal em um thriller sobre desejo, culpa e consequências. O longa de 1986, entretanto, é menos um suspense convencional do que uma narrativa sobre a transformação gradual de uma relação amorosa em uma experiência de domínio e dependência. A figura de John Gray permanece ambígua: ele é sedutor e carismático, mas também manipulador, e sua incapacidade de estabelecer uma intimidade equilibrada torna o relacionamento cada vez mais destrutivo. Elizabeth, por sua vez, representa uma mulher que inicialmente aceita experimentar novas formas de intimidade, mas acaba confrontada com o custo emocional de permitir que outra pessoa determine os limites da relação. Essa dimensão explica por que o filme continua sendo debatido, mesmo por espectadores que consideram seu roteiro irregular. No Rotten Tomatoes, a avaliação contemporânea registra cerca de 58% de aprovação da crítica e 55% do público, refletindo uma recepção ainda dividida, embora o consenso reconheça o poder de suas cenas sensuais e considere mais convencional o drama que as acompanha. O filme também ajudou a consolidar a imagem de Mickey Rourke como um astro de presença física e comportamento imprevisível, enquanto Kim Basinger reforçou sua posição como uma das atrizes mais associadas ao cinema americano da década. Sua reputação atual depende menos de um consenso crítico absoluto do que da combinação de estilo visual, música, controvérsia e memória cultural. Nove Semanas e Meia de Amor permanece, assim, como um retrato imperfeito, mas influente, da maneira como Hollywood explorou o erotismo e as relações de poder nos anos 1980.

Nove Semanas e Meia de Amor (Nine 1/2 Weeks, Estados Unidos, 1986) Direção: Adrian Lyne / Roteiro: Patricia Knop, Zalman King e Sarah Kernochan, baseado no livro autobiográfico publicado sob o pseudônimo Elizabeth McNeill / Elenco: Mickey Rourke, Kim Basinger, Margaret Whitton, David Margulies, Christine Baranski e Karen Young / Sinopse: Elizabeth McGraw, uma assistente de galeria de arte recém-divorciada, envolve-se com John Gray, um enigmático profissional do mercado financeiro. O que começa como uma paixão intensa transforma-se gradualmente em uma relação marcada por experiências sexuais cada vez mais ousadas, manipulação emocional e disputas de controle. À medida que Elizabeth percebe que a intimidade entre os dois está comprometendo sua autonomia, ela precisa decidir se ainda deseja permanecer naquele relacionamento.

Erick Steve.

sábado, 3 de outubro de 2026

O Ano do Dragão

Título no Brasil: O Ano do Dragão
Título Original: Year of the Dragon
Ano de Lançamento: 1985
País: Estados Unidos
Estúdio: De Laurentiis Entertainment Group
Direção: Michael Cimino
Roteiro: Oliver Stone, Michael Cimino
Elenco: Mickey Rourke, John Lone, Ariane Koizumi, Leonard Termo, Raymond J. Barry, Victor Wong

Sinopse:
O experiente e controverso capitão da polícia Stanley White (Mickey Rourke) é designado para combater o crime organizado chinês em Chinatown, Nova York. Obcecado em destruir a violenta Tríade conhecida como White Tigers, White entra em uma guerra pessoal contra o jovem e ambicioso líder mafioso Joey Tai. À medida que a violência cresce, o confronto se torna cada vez mais intenso, expondo preconceitos, conflitos culturais e os limites morais da lei.

Comentários: 
Entrei nessa jornada de rever antigos filmes dos anos 80 e 90. Estou confrontando a minha memória cinéfila do passado com uma avaliação atual, baseada no que vejo nos dias atuais. Dessa vez foi a hora de rever "O Ano do Dragão". Assisti  pela primeira vez lá mesmo, nos anos 80, e apesar de gostar, nunca foi dos meus preferidos. Agora, nessa revisão, o filme me pareceu bem melhor! É uma obra cinematográfica que resistiu muito bem ao tempo, fruto do talento de Michael Cimino, que sempre foi um grande diretor de cinema, com uma atuação visceral de Mickey Rourke (em seu auge!). Concordo que o filme tem um subtexto complicado, mostrando esse policial que deseja limpar Chinatown, mesmo que para isso seja preciso passar por cima da lei. É interessante ver como o personagem, que é um veterano da guerra do Vietnã, não consegue aguentar toda a politicagem que existe dentro da polícia e da prefeitura de Nova Iorque, como se os figurões não quisessem mudar nada naquele bairro dominado pelo crime! E tudo isso acontece no meio de uma guerra de criminosos, com os bandidos mais jovens tentando ocupar o espaço ainda ocupado pelos velhos dinossauros. Um filme muito bem fotografado, até bonito de se ver, mas com uma beleza diferente. É a beleza de Chinatown, um lugar cheio de história, mas também com o crime organizado enraizado em suas ruas e vielas. 

Pablo Aluísio. 

O Ano do Dragão

O Ano do Dragão
"O Ano do Dragão" foi um dos grandes sucessos de Mickey Rourke no mercado de vídeo que naquele momento estava invadindo todos os lares aqui no Brasil e lá fora. A fita, um policial movimentado e com ares de filmes de ação, caiu bem em cheio no gosto popular. A produção foi dirigida pelo cineasta Michael Cimino que já havia trabalhado com Mickey Rourke em um dos maiores fracassos de sua carreira: o caro e mal sucedido "O Portal do Paraíso". O roteiro é de Oliver Stone, naquele momento apenas um roteirista de sucesso que iria em breve estourar com o grande êxito de público e crítica "Platoon" que mostrava as vísceras da Guerra do Vietnã. Curiosamente o policial interpretado por Rourke aqui também é veterano do Vietnã e odeia asiáticos em geral. 

Numa das cenas mais famosas ele desdenha de um oriental que tenta lhe explicar a importância da cultura milenar do oriente. Em um diálogo tipicamente xenófobo ele responde: "Vocês podem ter milhares de anos mas os Estados Unidos só tem duzentos e aqui as coisas são feitas assim!" Mickey Rourke surge em cena com os cabelos pintados de branco e seu personagem se chama Stanley White (branco) - seria mais uma reafirmação implícita do poder da raça branca sobre a amarela proposta discretamente por Oliver Stone em seu texto? Quem sabe o que se passava afinal na cabeça dele, só podemos mesmo deduzir sobre todas essa mensagens subliminares presentes no roteiro. "O Ano do Dragão" trouxe um sopro de fôlego renovado na carreira de Michael Cimino pois foi comercialmente bem sucedido. Logo após ele tentou novamente emplacar um sucesso com "O Siciliano" com Christopher Lambert mas as coisas não deram certo e o filme foi novamente um fracasso, contribuindo para encerrar a carreira do diretor.  

O Ano do Dragão (Year of The Dragon, Estados Unidos, 1986) Direção: Michael Cimino / Roteiro: Oliver Stone baseado no livro de Robert Daley / Elenco: Mickey Rourke, John Lone, Raymond J. Barry, Caroline Kava / Sinopse: Stanley White (Mickey Rourke) é um policial que investiga uma série de crimes dentro de uma comunidade chinesa em Nova Iorque.  

Pablo Aluísio.

Nos Calcanhares da Máfia

Nos Calcanhares da Máfia
Depois de décadas resolvi rever esse filme "Nos Calcanhares da Máfia". Minha lembrança era a de um bom filme, algo que se confirmou nessa revisão. Aqui temos um jovem Mickey Rourke, no melhor de sua fase no cinema. Ele interpreta esse gerente de restaurante no Greenwich Village, bairro de Nova Iorque. Ele é um cara honesto, decente, bem conceituado no bairro, mas que tem seus problemas. Apesar da pouca idade já é divorciado e tem pensão para pagar ao filho pequeno. A grana é curta, mas ele tenta levar a vida em frente. Só que comete um erro, arranjando um emprego de garçom para seu primo mais jovem, um sujeito adulto, mas com jeito de "crianção". 

Interpretado por Eric Roberts, esse sujeito sem noção começa a roubar no restaurante. O resultado é que os dois primos vão para o olho da rua. Pior do que isso. Ele resolve colocar em prática o roubo de um cofre e enfia seu primo honesto (Rourke) na cilada. Tudo até corre mais ou menos bem, a não ser por um detalhe mais do que crucial. O cofre pertence a um chefe da máfia de Little Italy. Então eles estão mais do que enrascados! Agora estão com a cabeça colocada à prêmio pela máfia de Nova Iorque! 

Algumas coisas me chamaram a atenção nessa reprise. Mickey Rourke já estava um pouco mais livre na sua interpretação. Sem essa de tentar se parecer com o jovem Marlon Brando dos anos 50. Isso trouxe uma naturalidade e uma espontaneidade para sua interpretação que não vemos em outras películas do ainda promissor Rourke. Já Eric Roberts exagerou um pouco na dose em sua interpretação. OK, ele basicamente interpreta um personagem idiota, então era algo meio previsível, mas não precisava ser tão absurdamente irritante. Toda vez que surge em cena, estraga tudo. Inclusive há um claro contraste entre o tom mais equilibrado de Mickey Rourke com os devaneios de seu parceiro em cena. Outro ator no lugar de Roberts faria bem melhor, tenho certeza disso. 

No saldo geral gostei bastante. É um daqueles filmes que não envelheceram mal, muito pelo contrário. A história flui muito bem, o ritmo é bom e agradável. Até o elenco secundário chama a atenção, como uma bela e jovem Daryl Hannah interpretando a namorada de Rourke, passando pelo chefão mafioso asqueroso em bom momento de Burt Young (da série Rocky). Pois é, mesmo os filmes ditos medianos dos anos 80, eram bem melhores do que os que vemos atualmente sendo lançados. Assim vamos continuar revendo boas películas do passado como no caso desse filme. 

Nos Calcanhares da Máfia (The Pope of Greenwich Village, Estados Unidos, 1984) Direção: Stuart Rosenberg / Roteiro: Vincent Patrick / Elenco: Mickey Rourke, Eric Roberts, Daryl Hannah, Burt Young, Geraldine Page / Sinopse: Dois primos são despedidos do restaurante onde trabalham e resolvem entrar numa jogada arriscada. Eles vão roubar um cofre que está desprotegido em um lugar remoto do bairro. Só não sabem que o dinheiro que está ali pertence á máfia de Nova Iorque. 

Pablo Aluísio.

Nos Calcanhares da Máfia

Título no Brasil: Nos Calcanhares da Máfia
Título Original: The Pope of Greenwich Village
Ano de Produção: 1984
País: Estados Unidos
Estúdio: United Artists
Direção: Stuart Rosenberg
Roteiro: Vincent Patrick
Elenco: Eric Roberts, Mickey Rourke, Daryl Hannah, Geraldine Page

Sinopse:
Charlie (Mickey Rourke) e seu primo problemático Paulie (Eric Roberts) decidem roubar 150 mil dólares para apostar em um cavalo, cujo resultado antecipado caiu nos ouvidos de Paulie. O problema é que o dinheiro pertence ao chefão da máfia local e isso certamente trará muitos problemas para todos os envolvidos no crime. Filme indicado ao Oscar na categoria Melhor Atriz Coadjuvante (Geraldine Page).

Comentários:
Mickey Rourke fez muitos filmes interessantes no começo de sua carreira. Um dos mais relevantes (e que anda bastante esquecido nos dias de hoje) é esse "The Pope of Greenwich Village". Hoje a película é uma das mais raras no mercado, até porque até onde vai minha memória o filme não foi sequer lançado em VHS no Brasil. Em termos estéticos o filme lembra bastante o visual das produções policiais dos anos 70. O realismo é focado em cada momento e o clima de sordidez que impera nos bairros mais populares de Nova Iorque explode na tela. Embora o filme tenha sido estrelado por Eric Roberts (irmão de Julia Roberts, um ator cuja carreira infelizmente não aconteceu), o destaque vai mesmo para Mickey Rourke. No auge de seu estilo cool de ser, com cabelo desgrenhado e barba por fazer, ele era a aposta da crítica para ocupar um lugar que um dia fora de Brando e James Dean. Era o próprio ator rebelde daqueles anos. Pena que tanta rebeldia acabou prejudicando sua própria carreira, pois Rourke recusaria nos anos seguintes ótimos filmes e se envolveria em brigas com produtores e escândalos na vida pessoal. Tudo foi minando sua subida rumo ao panteão dos deuses de Hollywood. De uma forma ou outra filmes como esse capturaram para a posterioridade seus melhores momentos dentro da sétima arte. Por essas e outras razões "Nos Calcanhares da Máfia" merece certamente ser redescoberto nos dias de hoje.

Pablo Aluísio.